Virtudes da coruja: uma reconciliação com o mistério

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Luiz Sureki, SJ

A coruja não é uma ave de exibição. Sua beleza não se impõe, não desfila, não seduz de imediato. É uma beleza que pede silêncio, atenção e demora, e, por isso mesmo, torna-se um símbolo no mínimo interessante para pensar uma existência que resiste à superficialidade. Em um mundo acelerado, barulhento e saturado de imagens, a coruja aparece como um contraponto: uma presença que pensa, que observa, que vigia sem ruído. Recuperar a sua figura é recuperar também algo do que estamos perdendo: a capacidade de contemplar, discernir e habitar a profundidade do escuro ou do obscuro.

  1. O silêncio que escuta

A coruja não é uma ave cantora. Algumas espécies até cantam, mas seu canto, na calada da noite, comumente mais assusta um transeunte do que lhe causa alguma admiração. Ela não marca presença pela voz: ela observa. Seu silêncio não é vazio, mas densidade. É um silêncio que escuta ‒ que se abre, que acolhe, que permite que o mundo se revele em suas nuances. Em contraste, nossa época fala demais e ouve de menos; confunde expressão com exposição, comunicação com ruído.

A coruja nos lembra que um pensamento profundo começa por uma suspensão, por um recolhimento. Escutar é mais difícil do que falar, porque exige renunciar ao próprio protagonismo. A coruja ensina que o pensamento nasce do silêncio, e que o silêncio é a condição para a irrupção da palavra.

  1. Ver na noite: atravessar o medo

A coruja enxerga na escuridão. Seus olhos atravessam o espaço onde os nossos hesitam. Não é apenas uma capacidade biológica; é uma metáfora poderosa. Ver no escuro significa suportar a ambiguidade, tolerar o que não se compreende, avançar mesmo quando o caminho não está claro.

A superficialidade foge da noite: busca alguma luz imediata, respostas prontas, o conforto das certezas rápidas. Mas é na noite que se revela o avesso das coisas, o que não se deixa capturar facilmente. A coruja ensina que clareza não é ausência de sombra, mas capacidade de atravessá-la sem se perder. A verdadeira lucidez é aquela que não teme o escuro.

  1. A presença do mistério

Algumas culturas associaram a coruja ao mau agouro. O canto de uma coruja pousada no telhado anunciaria‒ segundo as lendas ‒ doença, infortúnio ou até a morte de alguém querido. Mas essa crença não nasce porque a coruja faça mal. O caso é que sua presença imóvel, seu olhar fixo, sua aparição inesperada na noite, seu canto estranho, tocam uma região sensível da alma humana: a consciência de nossa fragilidade.

Tememos a coruja porque ela nos recorda, ainda que indiretamente, aquilo de que fugimos: a finitude. A superstição é muitas vezes o disfarce do medo; uma forma de projetar para fora aquilo que não desejamos encarar por dentro. Quando dizemos que a coruja “traz a morte”, talvez queiramos apenas afastar a verdade mais profunda: a morte já está sempre conosco, inscrita na condição humana, e qualquer sinal noturno parece despertar essa lembrança incômoda.

  1. Noturna, não sombria

A coruja habita a noite, mas não é criatura sombria. Há uma diferença entre escuridão e sombra. A noite que ela habita é espaço de vigilância, de movimento discreto, de percepção aguçada.

Vivemos numa cultura que idolatra a luz total: a visibilidade permanente, a exposição contínua, o espetáculo de si. Tudo deve ser iluminado, mostrado, compartilhado. A coruja nos devolve outro regime de luz: o da penumbra, da intimidade, da interioridade, do interior, pois é no interior ‒ no campo, na periferia dos grandes centros urbanos iluminados artificialmente, em lugares em que ainda há “noite”, em que ainda podemos contemplar as estrelas e a lua no céu, onde ainda existe vegetação, árvores, arbustos, vida animal, tocas, ninhos, fendas, riachos, flores naturais ‒, que ainda podemos, com sorte, ver uma coruja.

  1. Indomesticável como o pensamento

A coruja não se presta facilmente ao adestramento. Não é pássaro de gaiola, nem mascote previsível, nem peça de espetáculo. Mantém distância do ruído humano e resguarda a própria medida.

O pensamento, para permanecer livre, precisa desse mesmo gesto de distância. Um pensamento domesticado é aquele que se deixa moldar pela moda intelectual, pela opinião dominante ou pelo desejo de agradar. A coruja ensina que a liberdade do espírito exige uma certa marginalidade: uma recusa de servir ao imediatismo, de buscar aplauso, de viver na superfície. Pensar é manter-se levemente retirado ‒ não por desprezo, mas para ver melhor.

  1. A falsa magia: recuperar o símbolo

Os filmes transformaram a coruja em mensageira de feitiços, magia, encantamentos. Embora essa imagem seja atraente ao imaginário contemporâneo, ela empobrece o simbolismo mais profundo da coruja, reduzindo-a a um acessório de fantasia.

A verdadeira magia da coruja não está em carregar pergaminhos (como nos filmes de Harry Potter), mas em despertar perguntas. Ela é mensageira não de feitiços, mas de vigilância; não de encantamentos, mas de atenção; não de ilusões, mas de discernimento. Recuperar a coruja é recuperar a densidade do símbolo, não a leveza da caricatura.

  1. A beleza discreta da sabedoria

A coruja, diga-se uma vez mais, não é ave ornamental. Sua beleza é discreta, austera, silenciosa ‒ uma beleza que não se impõe, mas se oferece. É uma beleza que nasce da unidade entre forma e função, entre silêncio e vigilância, entre presença e mistério.

Não há vaidade na coruja: há adequação, sobriedade, serenidade. Sua beleza é a imagem sensível da sabedoria que ela simboliza. Ela não seduz: ela revela. Não encanta pelo que mostra, mas pelo que sugere.

A coruja, enfim, não nos propõe um modelo de vida, mas um modo de olhar. Seu silêncio denuncia o nosso ruído; sua visão noturna, a nossa pressa pela luz; seu mistério, a nossa impaciência com o que não se explica; sua distância, a nossa dependência da aprovação; sua beleza discreta, a nossa ânsia de exibição.

Talvez por isso a filosofia tenha feito dela sua companheira; não como mascote, mas como metáfora ou símbolo de uma sabedoria que vê na profundidade, que pensa no silêncio e que não cede ao fascínio do superficial.

 

Luiz Sureki, SJ é professor e pesquisador no departamento de Filosofia da FAJE

18/06/2026

Foto: Andy Chilton / Unsplash

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